«Um conto de Natal Presidencial», por Gustavo Cardoso

GC_PúbEste é um conto passado num palácio e que junta o fantasma de Sidónio Pais e Aníbal Cavaco Silva, os natais passados, presente e futuros e ainda o Presidente que se lhes seguirá a 24 de Janeiro de 2016.

É final de tarde de dia 24 de Dezembro de 2015 e um carro aproxima-se do Palácio de Belém e nele viaja o actual Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.

Depois de despachado o assunto dos indultos não havia muito mais que fazer no Palácio de Belém nesta véspera de Natal. No entanto, Aníbal Cavaco Silva havia sentido a urgência de se deslocar ao palácio algumas horas antes da ceia de Natal.

Talvez fosse o hábito, talvez fosse a necessidade de se sentir activo e talvez fosse o vício de estar no centro de tudo o que se passava, mas ao chegar aos portões de entrada e perante os elementos da PSP deixou de pensar nisso e focou o seu olhar no pátio vazio que se abria à sua frente e na única luz que iluminava a entrada ao fundo.

Ao entrar no Pátio das Damas, no escuro dos curtos dias de Natal, sentiu a antecipação do abandono daquela que havia sido casa e escritório durante dez anos. Pois, dentro de um mês haveria eleições e ao velho Presidente sucederia um novo Presidente.

Quando o motorista parou o carro junto à entrada, Cavaco Silva não saiu de imediato e pousando as duas mãos abertas sobre o assento, encostou a cabeça no apoio, respirou fundo e pensou se os funcionários do Palácio iriam ter saudades suas.

Imediatamente afastou esse pensamento, não interessava, também não havia cultivado grandes proximidades com eles. E não havia a maioria estado com um ou vários anteriores Presidentes?

Não, de facto nunca havia confiado muito nos que o rodearam nestes dez anos. Ao contrário dos seus assessores e consultores, não os havia escolhido pessoalmente e, definitivamente, também não teria saudades deles e eles também não.

Deu sinal para lhe abrirem a porta do carro, saiu para o frio e registou que este finalmente havia chegado para abraçar a época natalícia. O motorista abriu-lhe a porta de vidro do palácio, Cavaco Silva dispensou o motorista dizendo que não se demoraria e seguiu sozinho para as escadas que levam até aos “quatro caminhos” e até ao gabinete.

Subindo os primeiros degraus pensou se haveria mais alguém do seu staff a trabalhar nestas últimas horas do dia e decidiu que de certeza ninguém se teria rebelado contra as tolerâncias de ponto que o governo havia concedido. Essa era outra das contrariedades, um governo todo ao contrário dos seus desejos.

Definitivamente este governo não era um prenda de Natal daquelas da lista de desejos, era sim mais parecido com uma daquelas prendas que se recebe e, por não se gostar dela, sorri-se medianamente por educação e pensamos logo a quem a passar, mantendo o embrulho. Enfim, não precisava mesmo do Costa, da Catarina e do Jerónimo neste final de mandato.

“Quatro caminhos”? Parando o passo olhou para as quatro escadas que aí conduziam e interrogou-se sobre porque haveriam dado este nome a este pedaço de escadas? “Isto é mas é uma encruzilhada”, pensou, e preparou-se para dar o passo seguinte para o segundo lance de degraus.

Na iluminação reduzida de um palácio na noite de Natal tudo parece algo irreal e, por isso, não estranhou ver descer na sua direcção um homem de uniforme cinzento e foi com agrado que percebeu ser um militar, pode-se sempre confiar neles. Havia um ajudante de campo do Exército à sua espera e afinal não era tão mau como havia pensado.

Fixou o olhar no “ajudante de campo” que descia e tentou reconhecer de quem se tratava, a sua cara era-lhe conhecida, mas não lhe conseguia dar um nome, a idade tem destas coisas, mas era alguém conhecido e isso era bom.

Tinha bigode e porte militar, no entanto, tinha a face pálida, mais pálida que a sua própria e isso fez-lhe estancar o passo abruptamente, por instinto, como se algo não jogasse bem neste cenário, pois a figura que de si se aproximava era familiar, inspirava confiança, mas parecia deslocada.

“Bem-vindo”, dirigiu-se-lhe o “ajudante de campo”, mas não obteve resposta da parte de Cavaco Silva. A falta de resposta justificava-se pelo repentino espanto, incredibilidade, questionamento se se trataria de uma partida ou se estaria de repente perante um episódio fulminante de uma qualquer doença.

Não podia ser, era impossível, aquele homem à sua frente era o homem do quadro. Sim, do quadro do Museu da Presidência. Era o 4.º Presidente da República, o que havia sucedido a Bernardino Machado, era o Sidónio.

Quando estamos perante fantasmas, nada obedece aos protocolos de conversa com os vivos. Ou seja, não se precisa de falar com um fantasma para ele nos responder. E foi isso que se passou imediatamente.

Sidónio Pais, ou melhor o seu fantasma, dirigiu-se a Cavaco Silva e com um “Sim, sou eu mesmo”. Desfez as dúvidas, mas não a incredulidade do seu interlocutor.

E, continuando, disse: “Não há nada de estranho em me encontrar aqui, neste dia e nesta hora. Afinal, fui o único Presidente a ser velado neste Palácio após o meu assassinato a 14 de Dezembro de 1918.”

As palavras continuavam sem sair da boca de Cavaco Silva e, como uma estátua de sal, olhava hirto e sem expressão para o fantasma de Sidónio Pais, enquanto este continuava a debitar mais algumas palavras.

“Todos os finais de mandato entre o dia 14 de Dezembro e a véspera de Natal percorro os quatro caminhos do palácio na expectativa de falar com os meus sucessores e não és o primeiro a cruzar-se comigo. Embora nem todos tenham permanecido tão imóveis e me tenham deixado terminar esta conversa”, disse o fantasma de Sidónio com um esgar de sorriso irónico.

Perante essa ironia fantasmagórica, Cavaco Silva esboçou a pergunta sempre feita nas situações que se assemelham a um conto de natal com fantasmas, na velha tradição do Christmas Carol de Dickens: “Porquê?”

“A resposta é óbvia!”, respondeu o fantasma, e continuou dizendo: “Irás ser visitado por três espíritos, os quais irás ouvir com atenção ou serás amaldiçoado para todo o sempre.” Dito isto, estendeu a mão na direcção de Cavaco Silva, o qual por instinto, igualmente, estendeu a sua e, ao se tocarem ambas as mãos, o actual Presidente sentiu-se desmaiar.

No entanto, este desmaio era diferente, como se fosse um fechar de olhos para imediatamente os abrir.

Abriu os olhos e viu-se de repente sentado no cadeirão da sala do Conselho de Estado, mas do lado oposto da mesa onde habitualmente se sentava.

Estava sozinho na sala. Virou-se para o altifalante e para a campainha e quando ia tocá-la para chamar alguém sentiu uma presença, mais do que uma presença, uma cara que fazia parte daquela sala. Olhou para essa face e era a face de Marcelo Rebelo de Sousa.

Aníbal Cavaco Silva percebeu que o quer que fosse que estivesse a passar-se tinha um enredo, um enredo em que ele fazia de Scrooge e Marcelo Rebelo de Sousa era o fantasma do Natal passado.

Tudo isto era alucinante, mas não sendo exactamente um pesadelo, também não se podia acordar dele e decidiu deixar-se levar pelos acontecimentos, “pelo menos uma vez na vida não deve fazer mal, em vez de criar factos políticos, eu deixar-me ir” – pensou.

Como em todos os contos, quem conta um conto acrescenta um ponto, e este não seria diferente e, portanto, Cavaco Silva não estranhou ver que neste seu conto de Natal, a ordem do fantasma era respeitada, mas que o enredo estava algo alterado.

Daí que não estranhasse ver materializar-se na cadeira à sua esquerda Maria de Belém e, em simultâneo, surgir na sua frente um daqueles triângulos acrílicos com o nome do palestrante e com a palavra “Presente”.

Depois destas duas presenças, tornava-se claro que o fantasma seguinte, o do Natal futuro, só poderia ser o de António Sampaio da Nóvoa. E, assim foi, viu surgir no cadeirão em frente de si, ao fundo da mesa, ladeado pelas duas janelas que davam para o pátio das damas, a figura de Sampaio da Nóvoa.

Fixou o olhar e viu, por detrás de Sampaio da Nóvoa, a pequena escultura da República que estava na sala, colocada no tempo de Jorge Sampaio, e que havia sido retirada, já não se lembrava se por ordem sua, mas era irrelevante quem a tinha tirado. Estava lá de novo a República e um fantasma do Natal futuro na pessoa de Sampaio da Nóvoa.

Enquanto tentava decifrar tudo isto, Aníbal Cavaco Silva sentiu uma mão nas suas costas e virou a cabeça, num repente regressou ao seu gabinete e o calendário da Presidência da República e marcava 22 de Dezembro de 2015 – ao longo dos anos nunca tinha percebido porque a Secretaria Geral os continuava a fazer e, ainda por cima, neste castanho.

Seria tudo isto imaginação? Tinha a certeza que hoje tinha apreciado 93 pedidos de indulto e havia concedido apenas três, dois de penas de prisão e um de pena de expulsão. O resto não podia ter acontecido. Iria acontecer?

Numa fracção de segundo, decidiu que tudo isto deveria ser produto do seu subconsciente, talvez devesse não ter sido um Presidente tão “sovina” na atribuição de indultos, pois teria havido nos outros Natais mais gente que os mereceria.

Enfim, era Natal, mas era o último Natal como Presidente da República e o que está feito, feito está. Podia não estar totalmente bem com a sua consciência, mas o próximo Presidente não seria de certeza o Sidónio, sorriu com a ideia de que se o conto fosse verdadeiro nenhum dos seus mais próximos ou da sua cor política lhe sucederia e isso deu-lhe um certo alento.

Levantou-se e preparou-se para sair e pensou: “a única coisa de que tenho a certeza é que no dia 24 aproveitarei a tolerância de ponto.” E um quase sorriso surgiu na sua face.

Nota: todos os anos no Natal procuro neste espaço combinar a ficção dos contos de natal com a realidade da actualidade do nosso quotidiano. Daí que todos os conteúdos sejam ficção e toda a semelhança com a realidade seja produto de uma qualquer coincidência. Boas festas.

Professor do ISCTE-IUL, em Lisboa, e investigador do College d’Études Mondiales na FMSH, em Paris

In: http://www.publico.pt/politica/noticia/um-conto-de-natal-presidencial-1718356


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